A dengue é um problema recorrente no Brasil. Apenas nos quatro primeiros meses de 2024, a doença já atingiu 3,8 milhões de pessoas, segundo dados do Ministério da Saúde. Ela é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, cuja proliferação tem sido acelerada devido a fatores como o crescimento urbano desordenado e às mudanças climáticas. Por essa razão, a principal forma de conter a doença tem sido o controle de ambientes nos quais possam se reproduzir, como recipientes que acumulam água ao ar livre, e o uso de repelentes. Mas e se houvesse uma outra forma de combater o problema – uma solução que não causasse danos a seres humanos ou animais domésticos, que não deixasse cheiro e que matasse os mosquitos de forma rápida e eficaz? Foi pensando nesse dilema que Itamar Corrêa desenvolveu um verniz inseticida afasta-insetos. 

Formado em engenharia e técnico em química, Corrêa já tinha atração por misturar diferentes elementos desde a infância. “A gente começa a misturar um monte de produtos, né? Pasta dental com detergente, com álcool, para poder fazer alguma coisa. E eu, como uma criança, sempre fiz isso. Eu explodi algumas coisas em casa quando criança e adolescente”, conta. Esse interesse o levou a fazer o curso técnico em Química em Suzano (SP) – e logo no segundo ano já conseguiu estagiar em uma empresa multinacional.

Corrêa conta um caso que ocorreu durante sua entrevista nesta empresa que, de certa forma, antecipa sua trajetória atual. “No momento da entrevista tinha um marimbondo dentro da sala; e a entrevistadora não conseguia falar comigo porque ela ficava só olhando para cima, se defendendo do inseto. Eu pensei, esse marimbondo vai estragar a minha entrevista, então tenho que fazer alguma coisa, né? Subi em cima da mesa da entrevistadora, catei o jornal que eu estava lendo, fui e matei o marimbondo. Limpei a mesa, pedi desculpas, joguei o inseto no lixo e falei que a entrevista poderia começar. E a entrevistadora me pediu para conversar com a pessoa de Recursos Humanos. Não entendi, mas aí, para minha surpresa, eu descobri que havia sido contratado. Isso foi um divisor de águas na minha vida”, relembra. 

A multinacional na qual ele passou a estagiar era especializada em tintas e vernizes automotivos, o que deu a Corrêa experiência nessa área. Ele fez um curso de Engenharia Química, e ao mesmo tempo foi ascendendo na hierarquia da empresa. Em 2001 mudou para outra companhia, por meio da qual teve acesso a treinamento nos Estados Unidos e ao desenvolvimento de novos produtos e processos. “Fui incorporando novas habilidades. E já pensava em ter um negócio próprio. Cheguei a desenvolver algo com um amigo, mas era uma iniciativa mais voltada ao gerenciamento de produtos, não o desenvolvimento de materiais que eu queria.” A virada de chave aconteceu em 2010, quando finalmente Corrêa abriu sua própria empresa.

Surge o verniz anti-inseto

Em 2016, o Brasil enfrentava uma outra onda de casos de dengue – de acordo com dados oficiais, 629 pessoas teriam morrido por conta da doença, além de outras 165 que foram vítimas da zika e da chikungunya, também transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti. “Aí eu pensei: por quê ninguém faz uma tinta inseticida? Comecei a pensar no assunto, passei a noite inteira acordado, e aí comecei a desenvolver protótipos, incorporando toda a experiência que eu havia acumulado até então”, conta. Naquele mesmo ano já produziu amostras, fez testes e concluiu que o verniz desenvolvido apresentou resultados positivos. No entanto, a falta de normas para esse tipo de produto fez com que não fosse possível iniciar a comercialização. “Em 2019 já haviam normas, mas aí veio a pandemia da Covid-19 – e tive de paralisar tudo novamente.” Somente em 2022 Corrêa teve condições de realizar todos os exigentes testes demandados pela norma governamental, e assim ter condições de lançar o produto – denominado Afastinsetos.

Em testes realizados de acordo com os critérios estabelecidos por normas internacionais, o verniz causou a morte de 100% dos mosquitos Aedes aegypti após 24 horas, e 97,5% das baratas (Periplaneta americana) após 72 horas de contato com a superfície tratada com o produto. “Os testes foram feitos com o Aedes aegypti justamente por ser ele um mosquito mais robusto – ou seja, sua eficácia se estende aos outros tipos de mosquitos também”, acrescenta. Corrêa conta que uma das grandes vantagens do produto é o fato de ser um verniz transparente, feito à base de água. Com isso, ele não deixa cheiro, nem contém corantes ou outras substâncias que possam causar dano a animais domésticos ou seres humanos. 

O Afastinsetos contém microcápsulas, que liberam um ingrediente ativo chamado Lambda cialotrina nos insetos que pousam sobre a superfície na qual o produto foi aplicado. A tecnologia empregada garante que o inseticida seja liberado de forma lenta e constante, o que prolonga sua eficácia e mantém a concentração do agente ativo em níveis seguros para seres humanos e animais de estimação. Segundo Corrêa, o produto continua ativo por dois anos após ser aplicado em superfícies internas ou externas. E sua segurança foi atestada por uma série de testes toxicológicos e de inalação, que passaram nos critérios definidos pelas normas que regem esse tipo de produto. Atualmente o Afastinsetos é comercializado na internet.

Oportunidades de expansão

A ameaça que o mosquito Aedes aegypti representa não é exclusividade do Brasil, mas de diversas áreas de clima tropical – o que abre oportunidades de vendas externas para o produto. “O primeiro passo, neste ano, é o de apresentar o produto ao mercado brasileiro. Mas tenho mantido contatos em outros países, como África do Sul, Austrália e também nos Estados Unidos – que também têm problemas com insetos.” 

Mas os planos futuros de Corrêa e de seu Afastinsetos não se limitam ao aspecto comercial.  “Existe uma questão que para mim é pessoal. Quero doar o produto para lugares onde ele seja necessário. Por essa razão pretendo desenvolver projetos sociais com entidades, por meio dos quais eu possa levar o produto para ajudar a proteger essas pessoas.”, finaliza.

Em entrevista ao IstoÉ – Sua História, Itamar Corrêa compartilha sua trajetória e fala sobre o desenvolvimento do Afastinsetos. Confira o papo na íntegra:

.

Conteúdo produzido exclusivamente para a seção Sua História, como branded content. Todas as informações foram fornecidas pelo entrevistado e não refletem a opinião de IstoÉ Publicações.