Com bagagens de vida completamente distintas e com muita experiência no mercado de construção, Josielen Gonçalves e Júlio Paulin formam uma dupla mais que dinâmica. Ambos são parceiros no comando da Stalo Soluções Metálicas, empresa de construções metálicas que, mesmo existindo há apenas três anos no mercado, já se estabeleceu como referência no segmento por conta da extensa experiência do casal de engenheiros. Contudo, suas bagagens pessoais e profissionais, apesar de diferentes, moldaram características que foram fundamentais para o sucesso do negócio.

Júlio, de 39 anos, nasceu em Curitiba, Paraná, em uma colônia italiana chamada Santa Felicidade e passou boa parte de sua juventude com a família, descendentes de europeus. “Tenho a visão de olhar do meu pai, um cara sempre batalhador, sempre quis o melhor para a sua família. Literalmente trabalhava de segunda à segunda. Ele já trabalhava na área da construção civil quando nasci, ele era técnico de edificações na Embratel e sempre trabalhou com grandes projetos. Tenho a memória de ir pras obras com ele, lembro do cheiro de obra, isso sempre me agradou. Desde pequeno tinha essa admiração em ver o trabalho dele, ver o quanto ele se esforçava”, conta Júlio. 

E a sede de conhecimento de seu pai fez com que os dois compartilhassem um momento muito importante de sua vida, o ensino superior em engenharia civil. “Minha mãe faleceu quando eu tinha quinze anos. E aí naquela fase difícil, meu pai quis ocupar a cabeça dele, e aí ele foi fazer engenharia civil, porque ele não era formado, ele era técnico. Meu pai se formou dois anos antes de eu me formar. Ele estudou numa escola particular, porque ele tinha que estudar à noite, e eu acabei cursando a UFBR. A gente não foi da mesma faculdade, mas éramos contemporâneos, de dividir aquela realidade”, conta.

Depois de várias experiências na área, inclusive em construções em Brasília, o engenheiro cursou um MBA em gestão empresarial no Paraná e se mudou, em 2009, para a cidade de São José dos Campos, em São Paulo. Na ocasião, a vinda foi motivada por um projeto de expansão da refinaria da Petrobrás. “Tive o privilégio de me formar em uma fase em que o Brasil estava com muitas obras e com muitas obras boas. Nesses momentos de expansão do PAC e tudo mais, a gente teve muita obra importante acontecendo. E eu participei de tudo isso. Então acho que adquiri uma bagagem boa, além da vontade de ficar nesta área industrial. Me identifiquei muito com São José dos Campos, e resolvi fixar residência e aí onde as nossas histórias, minha e da Josi, começam a se cruzar”, conta. 

Josielen Gonçalves, de 40 anos, nasceu em Taubaté, em São Paulo. Sua origem foi desafiadora e exigente. “Minha família era bem simples. Fui criada pela minha mãe, que era manicure e tinha um salão de beleza. Tive que começar a trabalhar muito cedo. A gente passava bastante dificuldades em casa, não tínhamos muitos recursos. E eu sempre quis muito estudar, só que minha mãe, infelizmente, não tinha condições de me colocar numa escola boa”, conta Josi, que começou a trabalhar com apenas 10 anos. “Trabalhei desde um escritório de contabilidade à casa de família, como caixa de supermercado etc e, quando estava com uns 14 anos, trabalhava em uma loja. Lá, me dei conta que não era aquilo que eu queria pra mim, sempre quis fazer faculdade”, relata Josi.

A empresária usou das opções que tinha para conseguir seguir seu sonho de continuar os estudos. “Comecei a ir atrás do poder público, ir atrás da prefeitura para tentar uma bolsa para estudar em uma escola boa, para ter chances em uma federal. A gente sabe que é muito difícil uma pessoa de escola pública conseguir sem cursinho, sem nenhum recurso”, aponta. Apesar de receber muitos “nãos” como resposta, isso não a impediu de perseverar. “Com 17 anos, fui morar sozinha, então foi mais difícil ainda, porque eu tinha que me manter, e aí ficava quase impossível fazer uma faculdade”, conta. “Em Taubaté tem uma faculdade municipal, então como eu sabia que a prefeitura tinha parte e tinha uma certa parcela de bolsas, eu precisava me inscrever. Só que para conseguir fazer a inscrição, eu tinha que pagar, na época, era o valor de duas mensalidades. O que eu ganhava no comércio não era o suficiente”, relembra. 

Para atingir seu objetivo, Josi teve que recalcular sua rota, e resolveu fazer outro curso, técnico, mais acessível, para então guardar dinheiro para sua sonhada faculdade de engenharia. “Fui fazer técnico em segurança do trabalho e quando estava finalizando o curso, um professor me falou que eu tinha bastante o perfil e me indicou para uma indústria em Taubaté. Lá, trabalhei como técnica em segurança do trabalho. Depois consegui me destacar, e me puxaram para a indústria, na área de planejamento de compras”, conta Josi, que conseguiu passar no vestibular e se tornar bolsista, depois de muito insistir em pedir ajuda ao poder público. Quando estava no segundo ano da faculdade, Josi ficou grávida do seu filho, o que tornou sua rotina de trabalhadora e estudante ainda mais complexa. “Foi uma fase difícil, mas foi uma fase muito prazerosa, porque eu tinha o Vitor, que era a minha compensação, e ao mesmo tempo eu tive ajuda de pessoas que eu não esperava”, conta Josi, que teve todo um suporte de familiares, amigos e colegas para conseguir se formar. 

Depois de ganhar experiência na área industrial e ter contato com obras mais pesadas, Josi conheceu Júlio no processo de integração da empresa em que trabalhavam juntos, na qual Josi entrou como estagiária. Após trabalharem por aproximadamente um ano e meio, Júlio permaneceu na empresa, na qual era gerente de obras, e Josi teve que ser desligada por não haver vagas para efetivação. “A empresa já tinha uns 12 engenheiros, já estava com o quadro formado. Na verdade, a Josi se formou bem na época da Lava Jato. A Construção Civil brasileira naquele momento parou. Nesse momento, eu já nem trabalhava mais com obras de infraestrutura. A gente trabalhava em obra privada, por exemplo, prestando serviço para as montadoras. Só que as montadoras também pararam. Na verdade, o Brasil inteiro parou naquele momento”, relembra Júlio. 

Seguindo caminhos separados, Josi continuou a crescer na carreira e sempre mirou no empreendedorismo. “Antes da Stalo, tentei abrir três empresas. Nesse período de separação entre eu e o Júlio, ele continuou na empresa como gerente, e eu comecei a fazer outras coisas. Então, tentei empreender e tive muitos problemas, porque não recebia. Aí eu voltei a trabalhar como CLT novamente”, conta Josi. Nesse meio tempo, a empresária também fez um MBA em gestão financeira pela Fundação Getúlio Vargas. Posteriormente, Júlio também evoluiu na carreira e estava empreendendo. “Fundei minha empresa no final de 2016, e a Josi já veio trabalhar comigo, trabalhamos ali 2017, 2018. Aí aconteceu um fato que foi muito difícil pra mim, mas foi um fato muito importante para o nosso fortalecimento profissional. A minha filha, que nasceu em 2017, foi diagnosticada com câncer no cérebro, e foi algo muito sério”, relata Júlio. Nesse momento, ele teve que contar com a ajuda de Josi, que assumiu as responsabilidades de vários setores da empresa.

União de saberes e experiências

Com sua filha Helena curada, chegou a pandemia, um momento dificultoso novamente, mas agora para Josi, que teve sua mãe diagnosticada com câncer. “Comecei a ficar com a minha mãe muito mais tempo. A gente ficava mais dentro do hospital do que fora, e como estávamos um pouco mais tranquilos nas obras, e o Julio estava mais presente, eu comecei a fazer mais home office, então eu levava o computador para o hospital e ficava trabalhando lá”, conta Josi. A engenheira, que ainda era funcionária de Júlio na empresa de engenharia J Paulin, pensou que também poderia tentar, de novo, a vida empreendendo. “Um dia, fui dormir e, às três horas da manhã, foi até muito engraçado, parece que deu um estalo em mim, eu levantei e falei assim ‘taí, vou abrir uma empresa de estrutura metálica’. Na mesma hora sentei no computador e comecei a fazer o plano de negócios”, conta Josi.

Esse foi o nascimento da Stalo Soluções Metálicas, em 2020, que logo chamou a atenção de Júlio, que se uniu à empreitada. “A gente trouxe o ambiente fabril para dentro da construção. Fabricamos tudo em um galpão e levamos as obras praticamente pré-montadas. Isso foi muito legal porque conseguimos trazer o conhecimento que tínhamos da construção civil, do planejamento, das estratégias, mas também aquele ambiente fabril de qualidade, de monitoramento, de segurança, e incorporamos tudo isso na empresa”, detalha Josi. Atualmente, o foco da empresa é na área industrial, em projetos de estrutura metálica e montagem, além de turnkey da execução civil. A empresa também possui o segmento comercial e residencial. “Fazemos uma estrutura paramétrica, que é uma estrutura engenheirada. Então, entendemos a necessidade do cliente, desenvolvemos o projeto exclusivo pra ele, desenvolvemos as peças e levamos para ser montado, tudo com essa filosofia de industrializar, fazer algo que tenha rastreabilidade”, explica Júlio. 

A Stalo é o resultado direto da expertise dos dois engenheiros. “A gente quis que a Stalo se posicionasse como uma empresa de vanguarda. Que saísse daquela construção tradicional tijolinho por tijolinho. E esse também foi um dos motivos da antiga marca ter saído do mercado, que foi a J Paulin. Na verdade, acabamos incorporando tudo dentro do grupo, e Josi comprou metade do passivo da construtora”, relata Júlio. Localizados em Taubaté, atualmente a Stalo possui 30 colaboradores e uma fábrica de 600 m².. “São somente três anos de empresa, e estamos tendo um retorno muito grande. Isso nos deixa bem feliz. Três anos é muito pouco, e está tendo uma repercussão muito grande na nossa região, no Vale do Paraíba. Já fizemos obras em todo o Brasil”, comemora Josi. 

Agora em 2024, a empresa está na fase final de aprovação do seu projeto de expansão, que inclui uma nova fábrica no distrito industrial de Taubaté, em uma área de 10 mil metros quadrados. “Vamos iniciar o projeto ainda neste semestre. Tem um planejamento de aproximadamente 18 meses de implantação dentro desta nova unidade, e isso vai nos dar uma capacidade produtiva bem maior, deve chegar a umas trezentas toneladas por mês”, comenta Júlio. “Além disso, também criamos um braço de inovação, porque entendemos que estamos em um setor, da construção, que é carente de inovação. Na verdade, o pessoal ainda é muito tradicional, muito conservador. E tem muita coisa nova que pode ser implementada. É um braço de desenvolvimento de produto, uma construtech que será ligada ao grupo justamente para desenvolver produtos para a área de construção civil. Então, temos alguns projetos que estão em fase inicial, junto com pesquisas em universidades, o que é um diferencial no mercado. Não queremos fazer mais do mesmo. Estamos realmente aqui para mudar para melhor”, conclui Julio.

Em entrevista ao Istoé Sua História, Josielen e Júlio dão mais detalhes de suas trajetórias e sobre a expertise da Stalo, além de comentar cases de sucesso e planos para o futuro. Confira: