O médico e empresário Walter Bernardina sempre soube que queria atuar no cuidado com o outro. Fundador da Casa de Saúde São Bernardo e do plano de saúde São Bernardo, sua atuação estabeleceu um padrão de atendimento referencial na sua cidade natal, no interior do Espírito Santo. A venda do hospital para o Grupo Athena, em 2021, embora impactante, representou o cumprimento de uma missão para o empreendedor, que atuou na medicina por 40 anos. 

Nascido em Colatina, no Espírito Santo, Walter é filho do meio de sete irmãos. Seus pais eram da área do comércio e, apesar de ser incentivado a continuar nos negócios da família, Walter quis ir embora de sua cidade para estudar Medicina em Vitória, capital do Espírito Santo. “É engraçado que hoje eu percebo que era muito intuitivo. Pensei que se ficasse na cidade, trabalhando lá, iria vender coisas que não me interessavam. E antes eu queria ser padre, mas os hormônios da idade não me permitiram”, brinca. Sua ida para a capital permitiu que ele encontrasse na medicina sua vocação que o seguiria por praticamente toda sua vida. 

Em Vitória, fez o curso na Universidade Federal do Espírito Santo e se hospedou na casa de parentes. Lá, recebeu a orientação de seu cunhado, do qual era muito próximo, e que também era médico. “Ele estava me ajudando, me orientando na época. Até que ele sofreu um acidente e morreu”, revela. “Não tinha ninguém da minha família, fiquei desamparado”, conta. “As dificuldades da vida muitas vezes vão te guiando, quando apareciam pedras no meu caminho, eu ultrapassava, desviava, subia em cima”, relembra. 

Walter conta que o seu interesse sempre foi a ortopedia e que já havia escolhido a área antes mesmo de ingressar na faculdade. No primeiro ano do curso, conseguiu um emprego em uma clínica, revelando raios-x. “Fui aprendendo a lidar com os clientes, e principalmente porque os ortopedistas são tidos como um pouco grossos, não tem muita paciência. E eu queria atender o cliente como um cliente”, conta. “Depois disso, fui tendo oportunidades, me formei e fiz alguns cursos de pós-graduação e voltei para minha cidade, Colatina”, conta.

Referencial em atendimento

Com uma nova clínica em sua cidade natal, Walter conta que a realidade dos atendimentos eram diferentes de Vitória. “Os médicos entravam com a bota suja de esterco, vinham da fazenda, eu ficava apavorado, porque infecção na parte óssea é algo gravíssimo, não sara direito”, conta. Sua esposa, que é enfermeira, o ajudava no preparo das salas para os médicos que também trabalhavam no local, mas Walter sabia que precisaria criar seu próprio centro cirúrgico se quisesse aplicar a mesma qualidade de atendimento do qual foi ensinado na capital. “No meu consultório, tinha uma área atrás que eu consegui comprar. Então, montei meu hospital que chamavam de casa de saúde, porque era pequeno, tinha apenas 10 leitos, dos quais eu utilizava com meus pacientes”, conta. 

Mesmo pequena, a Casa de Saúde São Bernardo começou a chamar a atenção de médicos e, principalmente, pacientes, que percebiam o diferencial no tratamento. “Os pacientes que operavam comigo lá, queriam que os parentes fizessem outras cirurgias. O hospital com dez, onze leitos começou a encher muito. Fizemos então um segundo andar. Isso chamou a atenção, e então veio a Unimed”, diz. A concorrente queria comprar o espaço de Walter, que se recusou a vender. Com a pressão que recebeu para vender seu negócio, o empresário decidiu ir para o caminho oposto e criar seu próprio plano de saúde. “A minha resposta foi muito mais de pirraça do que de estratégia” admite.  

Por conta da boa fama que o atendimento da Casa de Saúde tinha construído ao longo de 10 anos, o resultado do novo plano de saúde, chamado São Bernardo Saúde, foi surpreendente. “Achamos que ia vender devagar, mas no primeiro mês a gente vendeu 3 mil vidas”, exclama. Walter conta que, mesmo credenciando outras clínicas, os pacientes queriam ser atendidos em seu hospital. “Tínhamos diferenciais, como atendimento 24h, que não existia na cidade”, diz. “Fizemos a primeira tomografia, a primeira ressonância, a primeira laparoscopia da cidade”, conta. 

Expansão, superação e venda

Walter comprou então um novo terreno, que ficava onde era uma empresa de café anteriormente. Lá, foi possível investir ainda mais em estrutura, que incluía cirurgia cardíaca, neurocirurgia, etc. Foram trazidos mais de 20 profissionais de outros locais, como cirurgiões e profissionais de UTI. “A gente liberava qualquer paciente que chegasse, não interessava se não podia pagar, se tinha ou não plano, porque a gente precisava fazer. As pessoas sabiam que se tivessem dificuldades, a gente ia resolver, pelo menos na parte de urgência”, aponta. 

Todo esse crescimento também gerou mais cobranças da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que exigia que seu recente novo regulamento e prazos fossem seguidos. “As obrigações eram muito fortes, a gente não estava muito preparado para isso, ninguém estava na verdade, mas a gente, que cresceu muito rápido, menos ainda. Então tivemos problemas sérios, conhecemos o fundo do poço, o alçapão do fundo do poço. Mas não desistimos, trabalhamos muito, acordamos mais cedo, e dormimos mais tarde e conseguimos essa virada de jogo”, revela.

Com a adaptação a mudanças no mercado e contínuo crescimento, o negócio de Walter começou a chamar a atenção novamente, mas dessa vez, o empresário tomaria uma atitude diferente. “Começamos a chamar atenção nessa parte de consolidação, na época que os planos começaram a ir para a bolsa de valores, primeiro foi a Amil, que depois saiu e agora até foi vendida”, detalha. “A gente vendeu para o Grupo Athena, mas a procura foi muito grande, as propostas foram bastante interessantes. E, pelo aperto que a gente tinha passado, percebi que íamos ficar muito pequenos no jogo”, afirma. A venda do hospital para o Athena Saúde aconteceu em 2021. Para Walter, essa foi uma decisão que impactou em sua vida e na de sua família, e que no fim gerou a sensação de dever cumprido em todos. “O que a gente fez para a sociedade tem uma importância muito maior do que aquilo que ganhei”, afirma. 

Apesar de estar afastado dos hospitais e da prática médica, o empresário ainda está na ativa. “Hoje tenho alguns investimentos, porque não posso parar. Meus filhos me cutucam muito para isso”, diz. “A gente precisa de estar trabalhando, porque se parar de trabalhar, você acaba diminuindo, deprimindo”, afirma. “É muito melhor você ajudar do que ser ajudado”, valoriza. Walter, que é o autor do livro “Administrar? É simples assim”, conta que irá escrever outro. “O segundo livro será ‘Administrar Não é Tão Simples Assim’”, ri. 

Em um papo com o Istoé Sua História, Walter Bernadina dá mais detalhes sobre sua carreira como médico e sobre o processo de venda de seu negócio. Confira: