Ao completar 15 anos, a adolescente Alaíde Barbosa Martins não ganhou uma festa grandiosa ou uma viagem à Disney. No lugar de algum presente convencional, seu pai levou a jovem ao cartório, a emancipou legalmente e a colocou no comando de uma padaria. Foi assim que a trajetória de Alaíde começou: administrando uma atividade comercial bastante exigente. Isso fortaleceu sua veia empreendedora até chegar ao momento atual, em que administra uma rede educacional e investe em startups inovadoras.

“Sempre fui muito inquieta e questionadora. A partir desse primeiro negócio, me tornei mais independente, tendo que tomar decisões para fazer as coisas acontecerem”, afirma. Ao concluir a primeira formação na faculdade, Alaíde teve de tomar uma grande decisão: deixar de atuar como empreendedora e começar a estagiar no Polo Industrial da Bahia, em uma empresa do grupo Odebrecht. A partir daí ela iniciou uma jornada de 23 anos pelo mundo corporativo, tendo chegado até o cargo de diretora-executiva. 

Mas a veia do empreendedorismo, despertada na adolescência, continuou presente. “Mesmo atuando dentro de uma grande empresa, eu tinha sempre que ter um olhar de ‘dona do negócio’. Isso me fez crescer muito profissionalmente, porque essa postura estava alinhada à cultura organizacional da companhia. Continuei também com meus estudos fazendo meu mestrado, doutorado e pós-doutorado na área de Engenharia. Mas eu ficava pensando em como seria bom retomar a jornada daquela garota de 15 anos”, conta. Diante disso, Alaíde decidiu retomar esse rumo, tendo como objetivo a área educacional.

Educação transformadora

A própria história de vida de Alaíde no mundo corporativo a animou a investir na área de educação: “Sempre gostei muito de estudar, e percebi que era por meio da educação que as pessoas poderiam melhorar sua condição de vida. Foi graças à educação que eu, uma mulher do Nordeste, vim para São Paulo e atuei como diretora-executiva de um grande grupo empresarial. Por essa razão, decidi investir tudo o que conquistei nos 23 anos trabalhando para essa grande empresa no ramo educacional”.

Parte desse interesse pela educação veio de sua atuação como professora universitária, paralela à sua carreira corporativa. “Isso me fez ver que é possível transformar o Brasil por meio da educação. Foi a partir daí que surgiu o estalo para investimentos em um grupo educacional”. O grupo é formado por escolas de educação básica no Nordeste, especialmente nos estados da Bahia e de Sergipe, além da Faculdade Jardins, em Aracaju (SE).

O grande desafio, porém, surgiu com a pandemia da Covid-19. Naquele cenário de cancelamento das aulas e de distanciamento social, a única opção na época era o ensino à distância – e a Faculdade Jardins já estava preparada para isso, dispondo da tecnologia necessária para continuar suas atividades. “Foi nesse momento que eu me dediquei a várias leituras para entender o que estava acontecendo, e o que viria depois. E a gente tentava passar isso para os alunos de todas as séries.  E estimular esses jovens que estavam retidos dentro de casa, cheios de energia, a converter isso em vontade de estudar na frente de um computador”, relembra.

Este desafio foi acompanhado de uma oportunidade: a de expandir sua rede de ensino. “Naquele momento, várias escolas estavam fechando suas portas, abrindo a oportunidade para que pudéssemos adquirir essas unidades. Eu acreditava que aquela era a hora para isso; como detínhamos a tecnologia para educação a distância, poderíamos expandir nossas atividades e nossa base de alunos. Não poderíamos deixar a educação do Brasil sofrer mais do que estava naquele momento.”

O momento das startups

Ao mesmo tempo em que investia para fortalecer sua rede educacional, Alaíde também percebeu um outro movimento bastante promissor: a proliferação de startups, que com uma ideia bem-sucedida tinham a capacidade de se transformarem em lucrativos unicórnios. “Foi o momento em que começamos a olhar para a nova economia e as oportunidades que ela proporcionava. Foi então criada a Saber em Rede.” Atuando como uma rede de captação de alunos, a Saber em Rede é uma edtech busca disseminar a educação e o empoderamento financeiro por meio da promoção de conexões entre instituições de ensino do País, pessoas interessadas em vender cursos e alunos que buscam as melhores condições para estudar – um “Uber da educação”, como descreve a empreendedora. Como estímulo aos seus embaixadores, a iniciativa paga comissões em dinheiro. 

De acordo com Alaíde, mais de 23 mil pessoas já teriam sido impactadas pela Saber em Rede. “O projeto atua com grandes empresas e universidades, além de redes de escolas. E a gente fica muito feliz em ver como estamos impactando a vida das pessoas por meio de uma educação que pensa ‘fora da caixa’, e que é baseada em marketing de relacionamento – algo totalmente inovador.” 

Outros projetos também surgiram, como a Dr. Mep, uma startup de telemedicina veterinária. E a X5 Ventures, que nasceu a partir da união entre a Faculdade Jardins, a X5 Business e à rede de venture builder FCJ, e que busca a integração de startups voltadas para o mercado ESG (sigla em inglês para aspectos ambientais, sociais e de governança). “Essa iniciativa surgiu no projeto Universidade Garagem, e busca impulsionar empreendedores – que assim têm acesso a mentoria e meios para tirar suas ideias do papel, transformá-las em realidade e assim mudar a realidade das pessoas em seu entorno”. 

Alaíde acha que sempre há uma nova ideia que vale a pena ser investida: “Dizem que tudo que poderia ser inventado já o foi, e que todos os unicórnios já nasceram. É mentira: sempre haverá uma nova ideia, um problema que as pessoas não estão enxergando e que poderia ser solucionado com alguma ideia inovadora”.

Mudança de mentalidade

A necessidade de disseminar o empreendedorismo, estimulando ideias inovadoras, é, na avaliação de Alaíde, um papel fundamental da educação. “Não são os sonhos que mudam o mundo, são as ações. E para transformar o sonho em ação, você tem que fazer um planejamento para que aquilo aconteça. É o caso da padaria: é uma pequena indústria na qual você produz e depois vende – passando por todo o ciclo.  Essa experiência me ajudou muito em minha formação – e é uma coisa que eu sinto falta hoje nas escolas tradicionais, que seguem aquele modelo em que parece que você está ainda na época da Revolução Industrial, algo muito mecânico. E a gente mudou isso nas nossas escolas trazendo o empreendedorismo, incluindo educação financeira e estimulando a inovação”, afirma.

Essa mudança de mentalidade é especialmente importante na realidade brasileira, de acordo com Alaíde. “Quando falo das nossas escolas e da faculdade, estou falando de uma rede que atende a um público das classes B, C e D, com poder aquisitivo menor. Mas que tem acesso a uma educação de qualidade e a oportunidade de ver o que está acontecendo em termos de inovação. A gente contribui para essa mudança de mindset, dando a oportunidade para os alunos conhecerem o maior hub de empreendedorismo do país, que é o Cubo, em São Paulo, no qual estamos presentes. Isso é mudar uma realidade, é transformar vidas. E contribui para mudar a cultura do país”, finaliza.

Em entrevista ao IstoÉ – Sua História, Alaíde detalha sua trajetória cheia de propósito e empreendedorismo. Confira o papo na íntegra: