A necessidade de encontrar formas de motivar crianças e adolescentes a estudarem tem se tornado um desafio para famílias e escolas. Gerações mais novas, nascidas na era digital, teriam mais dificuldade em desenvolver habilidades necessárias ao aprendizado, como a capacidade de concentração. Para ajudar pais e professores a lidar com a questão, as educadoras Roberta e Taís Bento, mãe e filha, criaram a SOS Educação – iniciativa que inclui um site especializado no tema, além de um programa de cursos e palestras voltado a trazer soluções baseadas nas descobertas da neurociência cognitiva.

A trajetória da SOS Educação tem início com a história de Roberta – cujo interesse pela educação surgiu a partir da superação de uma condição que parecia ser um obstáculo intransponível. “Eu fui uma criança que enfrentou muitos desafios. A minha mãe apresentou uma complicação na hora do parto, e eu tive uma paralisia cerebral no momento do meu nascimento. Os médicos afirmaram a meus pais que eu provavelmente teria problemas de fala e audição; e que eu teria dificuldades de aprendizagem”, afirma. Após passar por cirurgias, Roberta foi aceita em uma escola, e passou a se apaixonar pelo mundo da educação. “Decidi muito cedo o que eu faria na vida adulta; seria uma forma de devolver o que aquela escola fez por mim.” A partir de sua própria história pessoal, Roberta percebeu essa capacidade do cérebro se recompor – hoje confirmada pela neurociência, e que mais tarde daria base para o seu trabalho e o de sua filha Taís na SOS Educação. 

Ao descobrir uma facilidade no aprendizado do inglês, Roberta passou a fazer cursos no idioma, e aos 17 anos ingressou na faculdade de Letras – na qual ganhou uma bolsa de estudos para uma especialização no Reino Unido. Ao voltar, passou a atuar em uma rede de ensino de Florianópolis (SC), na qual coordenava quatro unidades. “Era o momento em que o uso da tecnologia estava começando no ensino. Quando vi esse mundo novo que surgia, fui uma das primeiras pessoas da área de educação no Brasil a usar a tecnologia para ampliar o acesso ao ensino de inglês a um público maior. Com essa bagagem, voltei a São Paulo e ingressei em uma empresa na qual cheguei ao cargo de diretora. Foi nessa ocasião que eu passei a buscar no exterior experiências bem-sucedidas no uso da tecnologia na educação que poderiam ser implementadas no país”, relembra.

É nesse ponto que sua filha surgiu com uma proposta de sociedade. Após ter cursado Administração de Empresas, fazer pós-graduação em Marketing e atuar dando aulas de inglês para crianças, Taís criou, em 2014, um canal no YouTube no qual promovia uma espécie de reality show da educação: “Eu ia à casa das famílias e ajudava a ajustar a rotina de estudos dos filhos, atuando como uma ‘Supernanny da educação’. Logo notei que as pessoas realmente precisavam de uma ajuda para organizar essa rotina, e minha mãe sempre contribuía com sugestões. Foi aí que fiz o convite para ela se tornar minha sócia”, afirma. “E foi assim que a Taís me roubou de uma carreira de executiva na área de tecnologia da educação”, completa Roberta.

Parceria entre alunos, família e escola

Para Roberta, a sociedade com Taís foi a oportunidade de colocar em prática seu sonho de contribuir para ajudar as pessoas por meio da educação – da mesma forma que ela recebeu apoio quando mais necessitava. Para aperfeiçoar a abordagem que teriam, ambas visitaram universidades dos Estados Unidos para se inteirarem dos últimos avanços em neurociência – e de como poderiam auxiliar em sua proposta educacional. Especialmente importante nesse sentido foi a compreensão sobre a neuroplasticidade, isto é, a capacidade do cérebro de se reestruturar em qualquer fase da vida. Ambas se especializaram em Aprendizagem Baseada no Funcionamento do Cérebro pela Universidade da Califórnia e na Duke University, e em Aprendizagem Cooperativa pelas universidades de Minnesota e de San Diego. A partir daí iniciaram a atuação da SOS Educação por meio de um site – o que as levaria a ocupar espaços na mídia tratando do tema da educação. 

O diferencial que o SOS Educação trazia desde o início era uma abordagem prática, em linguagem direta, que poderia ser colocada em prática pelas famílias. “Colocamos o conteúdo que gerávamos no site, e passamos também a fazer palestras pelo Brasil inteiro, além de escrevermos juntas o livro Socorro, meu filho não estuda! em 2015. Assim, passamos a nos tornar referência na relação entre estudantes, família e escola”, comenta Taís. 

Roberta acrescenta que a realidade observada após o período em que a pandemia da Covid-19 trouxe uma série de desafios para a rotina de estudos levou a dupla a produzir outro livro, em 2023 –  o Guia para a Família Parceira da Escola no Pós-Pandemia, que tem parte da renda revertida para projetos educacionais do Instituto Ayrton Senna. Para ela, a única forma de crianças e adolescentes que passaram pelo isolamento imposto pela pandemia é a parceria com a família e a escola. “Por conta do nosso trabalho, e de nossa atuação nas redes sociais, além das palestras, temos tido uma vivência muito forte com as famílias”, complementa.

Em busca da motivação nos estudos

Na avaliação de Taís, o grande desafio que surge home em dia é a falta de motivação dos alunos em aprender – da educação infantil até o ensino médio. “Existem três necessidades básicas que precisam ser atendidas para um aluno conseguir ter a motivação necessária para aprender, para estudar, e que foram muito afetadas pela pandemia. São o sentimento de autonomia, de competência e de pertencimento. Com isso, hoje está muito difícil para o aluno, para a escola e para as famílias fazerem ressurgir essa motivação.” 

Há ainda a dificuldade em se obter um equilíbrio no tempo em que os alunos ficam em frente a telas de celulares, de tablets e videogames. “Trazemos sugestões de rotina semanal, em que quando alguns pontos estão presentes – atividade física, noites completas de sono, momentos de refeição sem tela, entre outros”, complementa Roberta. Segundo ela, o resultado tem sido bastante positivo, tanto por parte da família quanto da escola: “Deixamos claro que o desafio da educação dessa geração, que nasceu na era digital, só pode ser vencido por meio da parceria entre família e escola. E, à medida em que vamos trazendo as sugestões práticas do que ambos podem fazer, a conexão entre família e escola se torna o ponto forte ali. E isso se reflete de forma positiva não só no desempenho escolar do aluno, mas também em seu desenvolvimento, em suas habilidades socioemocionais e na autoestima.”

De acordo com Roberta e Taís, a SOS Educação deverá continuar a promover essa união entre famílias e escolas – participando de eventos de educação nacionais e internacionais e realizando palestras. Além disso, em 2024 foi lançada a plataforma SOS Família & Escola, que tem a finalidade de atender não somente instituições de ensino, mas também empresas que desejam oferecer apoio para os colaboradores que têm filhos em idade escolar. “Existem estudos que comprovam que inúmeros benefícios são gerados para as empresas que investem em algum tipo de suporte para esses colaboradores com filhos – como melhoria na saúde mental, aumento da produtividade, eficácia ampliada e satisfação com o próprio trabalho, entre outros”, destaca Taís. Com mais de 800 vídeos curtos e diretos, a iniciativa abre um caminho para que a SOS Educação esteja cada vez mais presente junto às famílias que enfrentam os desafios atuais na educação de seus filhos.

Em entrevista ao IstoÉ – Sua História, Roberta e Taís Bento dão detalhes de sua trajetória cheia de propósito. Confira o papo na íntegra: