A curiosidade e a inquietude são características que acompanharam Maycon Pereira por toda sua vida. Nascido em Itapetininga, no interior de São Paulo, o empresário de 43 anos sempre teve a convicção que sua energia mental poderia ser canalizada para a construção de um projeto concreto. Ao receber um diagnóstico tardio de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Pereira entendeu que sua força interior e inquietação foram fundamentais para seu crescimento profissional. Atualmente, ele comanda a Sonergy, uma empresa de energia solar que é referência em Maringá, no Paraná, e que investe em tecnologias dessa matriz energética pensando no futuro do setor. 

Quando criança, Pereira conta que “dava trabalho” para seus pais. “Meu pai e minha mãe tinham um sítio em São Miguel Arcanjo, uma cidade pequena em São Paulo. Com uns cinco anos de idade eles venderam o sítio porque acharam que eu ia morrer lá (risos). Eu só aprontava”, relembra. “Descobri recentemente que tenho TDAH. Mas vou no psicólogo, no psiquiatra e no neurologista também”, detalha. “Eu achava que não tinha capacidade de executar algumas coisas, achava que era burro, porque eu não conseguia me concentrar”, diz. Sintomas dessa síndrome são a inquietude, dificuldade de se concentrar e de se focar. 

Com tanta energia para gastar, Pereira conta que quis trabalhar desde cedo e aos nove anos começou a ajudar seu avô, que cultivava maracujá na região, a vender a fruta na feira. Aos 14 anos, aprendeu tudo sobre funilaria em outro negócio da família. “Sempre quis ter meu dinheiro. Sempre quis estar à frente, ter meu negócio”, detalha. Seu tino comercial ficou ainda mais evidente quando começou a vender cursos em uma escola de informática na cidade de Itapetininga, na adolescência. “Eu fazia três vezes mais ligações para vender o curso e atendia pessoalmente também. Em menos de um ano eu e um amigo batemos a meta de vendas da matriz, que era em Sorocaba”, conta.

O empresário revela que sempre foi competitivo e agitado e, ao conhecer sua atual esposa, Fabiana, pôde alcançar maior estabilidade. “Ela é totalmente diferente. Uma japonesa séria, totalmente diferente de mim, que tem um jeito extrovertido. Ela que me trouxe equilíbrio”. Depois de se casarem, resolveram ir morar no Japão, em 2005, dando início a uma nova etapa na vida pessoal e profissional do empresário.

Do outro lado do mundo

Assim como muitos imigrantes brasileiros que vivem no Japão, Pereira achou oportunidade de trabalho em uma fábrica. “Trabalhei com umas prensas quentes, eram sete prensas. Cada molde chegava a 175 graus, eu suava mais que tampa de marmita”, brinca.  “Eu sempre falava que queria ser chefe. Que seria o dono da minha empresa. Passavam aqueles caras de terno visitando a fábrica, e eu falava sozinho ‘um dia vou passar assim’”, relembra. Além de tentar aprender a língua nativa no pouco tempo vago que seu expediente de 14 horas permitia, o empresário também vendia notebooks para brasileiros que não falavam inglês nem japonês. “Ainda no Brasil, eu quis aprender inglês e, apesar de não usar a língua no Japão, descobri que a Dell contratava vendedores que falavam inglês”, conta.

Depois de cinco anos em solo asiático, uma doença na família os trouxe de volta ao Brasil. “Minha mãe teve câncer e resolvi voltar. Eu tinha uma vida confortável lá, ganhava bem. Mas, quando voltei para o Brasil, como eu não tinha faculdade, tive que me reinventar”, relata. Pereira e um amigo resolveram então trazer uma novidade do Japão para cá. 

Depois que sua mãe faleceu, no mesmo ano de sua volta ao Brasil, e o negócio da academia ao ar livre não prosperar, Pereira mudou seu foco para um novo empreendimento na cidade. “Eu via a energia solar sendo usada no Japão, principalmente depois do acidente na usina de Fukushima. E sabia que uma empresa na minha cidade ia mudar a chave para a energia solar. Vi aí minha oportunidade”, conta. 

Crescimento no setor de energia

Em sua nova investida, Pereira se uniu a sócios para iniciar seu projeto, mas as coisas não deram muito certo. “Um dos sócios quebrou a empresa no primeiro ano. Eu criei o nome da empresa, vendi um carro meu”, relata. Apesar de a sociedade não estar fluindo da maneira como gostaria, a experiência adquirida rendeu um convite da embaixada da Alemanha para visitar o país e aprender mais sobre energia solar. “Quando fui para a Alemanha, visitei fábricas, estava de terno, e me lembrei do que dizia quando estava no Japão, que um dia seria eu visitando as fábricas como um homem de negócios”, relembra.

O empresário sentiu que estava no caminho certo, apesar de ainda não ter sua própria empresa. “Fiquei com essa sensação de realizar um sonho, mas não era chefe ainda. Descobri que eu estava sendo passado para trás nessa sociedade, na contabilidade, porque eu não fazia parte do financeiro. Em 2021 resolvi separar a empresa, porque eu queria crescer”, conta. 

Pereira iniciou outra tentativa de empreendedorismo e montou uma nova sociedade, com novos sócios, pois precisava de apoio no empreendimento. “Trouxe sócios do segmento de fundos de investimentos, achei que era o que eu precisava para tocar meu negócio”. Contudo, essa segunda investida também se mostrou uma grande decepção. “Deixei esses novos sócios abrirem um CNPJ para que depois eles passassem para meu nome”, detalha. 

Para ele, todas essas decepções foram combustível para sua vontade de ter uma empresa apenas sua, dessa vez sem sociedades. “Vejo isso como um aprendizado. Consegui chegar onde estou agora, com milhões de faturamento. Conseguimos crescer bastante”, diz. Sob seu comando exclusivo, a Sonergy conseguiu se estabelecer como o maior nome de energia solar da região. Atualmente, a empresa tem contratos com usinas, cooperativas e grandes clientes, além de 60 funcionários diretos e indiretos e atendimento para todo o País. “Eu sou muito resiliente, não fico batendo no mesmo erro. Quando fiquei sem sócios, fiquei nervoso, mas aí uma voz me disse ‘você não queria ser chefe, agora você é, você que manda”, conta.

Investimento no futuro

Pensando no cenário de energia limpa que tende a se abrir cada vez mais nos próximos anos, Pereira criou o Charge Share, um aplicativo de compartilhamento de pontos de carregamento para carros elétricos. Com ele, será possível alugar pontos de carregamento, em horários e dias específicos. “Desenvolvi esse app e agora estamos finalizando para ser lançado nas lojas de aplicativos. Mas sei que não é algo para agora, é algo para o futuro, mas já estamos nos preparando para isso”, explica. 

Para o empresário, a mobilidade urbana é um setor que vai mudar muito e o segmento de energia deverá acompanhar esse movimento. “O que mais teremos no futuro são carros elétricos. Nós temos o potencial de gerar energia limpa e renovável, como solar, eólica ou biogás. O Brasil pode ser um gerador dessa energia”, diz. “Espero que os governos abram os olhos para a gente fazer a transição juntos com outros países, para não ficar para trás. Podemos ser uma potência. Temos um potencial gigantesco”, finaliza.